Na quarta-feira passada cheguei em Mercedes, uma cidade sem muitos atrativos turísticos, porém que está passando por um momento de transformação, devido a construção da fábrica de celulose em Fray Bentos. A fábrica é um assunto delicado que está causando uma grande discussão entre os governos da Argentina e do Uruguai. A Argentina alega que, devido a um tratado assinado na década de 70, antes de construir a fábrica, o Uruguai deveria ter pedido sua autorização e o Uruguai por sua vez alega que nada pode impedi-lo de conceder licença de construção de qualquer coisa em seu próprio território. Por conta disso, faz cinco meses que manifestantes argentinos fecharam a estrada que liga os dois países e não pretendem desbloqueá-la até que um acordo seja feito.
Tive a oportunidade de conhecer de perto os quatro lados da polêmica: a fábrica; os manifestantes, chamados de piqueteiros pelos uruguaios; um comerciante da fronteira que está passando necessidades por conta do bloqueio feito por seus compatriotas; e os uruguaios moradores das cidades de Mercedes e Fray Bentos.
A fábrica, projetada para ser uma das maiores, se não a maior do mundo, está com 90% das suas instalações concluídas e afirma que estão utilizando os melhores materiais para que o impacto ambiental seja o menor possível. Passei um dia inteiro andando pela obra e acompanhando o ritmo frenético de sua construção graças ao Beto, um brasileiro responsável por uma parte da obra que me conheceu pelo site, fazendo um convite para ficar em sua casa.
A "Fantástica Fábrica de Celulose" em Fray Bentos
Os manifestantes, muito pacíficos por sinal, alegam que a fábrica destruirá suas vidas, acabando, com a poluição que irá gerar, com suas fontes de renda, como a pesca, a agricultura e a pecuária. Fui muito bem recebido por eles e passamos a tarde juntos tomando mate e conversando. Ganhei até passe livre para atravessar quando quisesse, o que, segundo eles é privilégio de poucos.
O acampamento dos manifestantes argentinos
O comerciante diz que não está do lado da fábrica e muito menos dos manifestantes e deseja apenas trabalhar, pois devido ao bloqueio da estrada, teve que fechar seu restaurante e está trabalhando no restaurante de um amigo para poder sustentar sua família. Disse ainda que teve mercadoria saqueada e equipamentos roubados do seu estabelecimento.
O restaurante, fechado at‚ que a estrada seja desbloqueada
Os moradores de Mercedes e Fray Bentos dizem que os pobres manifestantes estão sendo manipulados e financiados pelo governo argentino que ainda tem, na verdade, interesse de levar a fábrica para o seu país. Isso que eu chamo de esperança...
A ponte, por enquanto deserta
Fui gentilmente recebido por todos e por isso não assumo posição alguma, deixo apenas o desejo de que a solução seja encontrada rapidamente e que seja boa para todos.
Se por algum motivo você passar por Mercedes, não deixe de jantar num restaurante chamado Ovelha Negra. O ambiente, os pratos, os vinhos, o atendimento dos garçons e a simpatia dos donos são mais do que convidativos. Isso sem falar no preço, que, como tudo no Uruguai, é ótimo, ainda mais para um restaurante desse nível.
No sábado peguei a estrada e com um belo dia de sol cheguei a Salto, a região de águas termais do país irmão. Por indicação do filho do Beto fiquei nas termas de Daymán, que fica há 8Km antes de Salto. O camping fica ao lado do parque que conta com oito piscinas de água quente com diferentes temperaturas. O dia no parque custa R$ 4,60 e você pode entrar e sair quantas vezes quiser, das 07 da manhã as 11 da noite. O camping que fiquei também conta com uma ótima estrutura: campo de futebol, uma ótima área verde, diversas churrasqueiras para a parrilla uruguaia, água quente em todas as torneiras, energia elétrica para a barraca e ainda duas piscinas de água quente, tudo isso por uma diária de coincidentes R$ 4,60 por pessoa. Devido ao feriado prolongado de primeiro de maio, Daymán estava com um movimento um pouco maior do que o esperado, mas nada que incomodasse.
Piscina das quentes termas de Daymán
Ontem fui a Uruguaiana para resolver uns problemas burocráticos e voltei para o Uruguai para conhecer as termas de Arapey. A área verde é muito maior do que a de Daymán e o camping fica dentro do parque junto com as piscinas que funcionam 24 horas, porém, apesar de relaxantes, não são tão quentes.
Me preparo agora para entrar para a Argentina onde pretendo convencer aos argentinos que o melhor jogador do mundo definitivamente não é o “Maladona”. Será que consigo???
Um grande abraço e boas estradas,
Rodrigo Ventura
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