A "Caverna de Las Brujas" está localizada a 65Km da pequena Malargue, 65Km esses que são percorridos por um precário caminho de terra pela famosa rodovia 40, e sua entrada está a nada mais nada menos do que 1800m do nível do mar. Os números do turismo na caverna são impressionantes, chegando a receber mais de 15.000 turistas por ano, estando a maior parte concentrada no calor do verão argentino. A caverna foi descoberta em 1920, mas até os anos 50 não foi explorada, possivelmente devido às lendas locais. Na década de 70 foi construído o caminho que liga a “ruta 40” à caverna, porém somente em 1990 foi integrada a rede de áreas naturais protegidas de Mendoza, ou seja, por 20 anos sua exploração foi totalmente livre.
Quando cheguei a caverna estranhei, pois não tinha absolutamente ninguém. A cabana dos guarda-parques estava fechada e nenhum sinal de movimento. Parei a moto ao lado da placa que indicava estacionamento e corri para o pequeno vão de entrada da cabana, me abrigando assim do forte vento. A saída estava marcada para as 10:15h, como tinha chegado com um pouco mais de meia hora de antecedência, concluí que os guardas ainda estavam por chegar. Enquanto esperava, entre o forte barulho do vento, ouvi um pequeno estrondo. Ao olhar vi a moto caída ao chão. Corri para levantá-la, colocando-a agora em uma posição corta-vento, mas de nada adiantou e em menos de 5 minutos estava outra vez ao chão. O jeito foi protegê-la ao lado da cabana, evitando assim que os fortes ventos a derrubassem novamente.
Por volta das 10:20h, para minha surpresa, a porta da cabana se abriu e um guarda-parque, com jeito de quem havia acabado de levantar fez sinal para que entrasse. Ainda com uma cara de poucos amigos me disse que aquele era o primeiro dia de greve e, sendo assim não poderia visitar a caverna. Começamos a conversar um pouco e o Guillermo, era esse seu nome, ficou encantado com a expedição, dizendo então que me levaria a caverna com o maior prazer e, ainda por cima, não me cobraria os 20 pesos de entrada.
Enquanto percorríamos suas estreitas galerias, o Guillermo me contava tudo sobre a caverna e sobre a região, transformando o passeio turístico em um agradável bate-papo sobre história, política, geologia... Chegamos a uma das salas e o Guillermo me disse que os passeios guiados chegavam até aquela parte, mas se prometesse não contar para ninguém em Malargue, me levaria até a ultima sala, a Sala de las Flores. Tive a certeza de que estava no meu dia de sorte. A caverna é realmente impressionante. Com paciência você pode ver diversas formas esculpidas ao longo dos seus 3Km de galerias, dentes de tubarões, flores, bruxas e até mesmo o rosto de Jesus Cristo com uma perfeita formação.
No caminho de volta parei na “Cascada de Manqui-Malal”. Fui recebido pelo seu proprietário que, coincidentemente, também atendia pelo nome de Guillermo. O local é perfeito para os apaixonados por trekking e ainda melhor para os escaladores, pois oferece vias dos mais diversos níveis de dificuldade. Além de tudo isso é um paraíso paleontológico, abrigando um enorme museu de fósseis marinhos a céu aberto, já que, há milhões de anos, durante a era mesozóica, portanto antes da formação da Cordilheira dos Andes, toda essa região era coberta pelo mar.
Em Malargue, outro ponto de visita obrigatória, é o famoso Valle de Las Leñas, reconhecido como o maior centro internacional de esqui da América do Sul. A estrada deve ser percorrida com cuidado, pois nessa época do ano não é raro encontrar parte do asfalto coberto por lisas e traiçoeiras camadas de gelo. A espera da temporada de inverno que começa no próximo dia 16, a vila se prepara para receber os turistas, com operários trabalhando por suas pequenas ruas e prédios.
No caminho para Las Leñas existem dois pontos turísticos que também não podem deixar de ser visitados: “Pozo de Las Ánimas” e a “Laguna de La Niña Encantada”. O primeiro é uma singular formação geomorfológica que consiste em um grande poço de formação circular com uma incrível lagoa de água doce e cristalina no fundo.
Já o segundo, a "Laguna de la Niña Encantada", é um espelho de água cristalina rodeado por rochas vulcânicas que abriga grandes e belas trutas.
Ainda em Malargue aproveitei para fazer um passeio a cavalo até o dique Blas Brisoli, um belo lugar para admirar o entardecer.
Deixando Malargue me aventurei em 750Km de estrada, sendo 170Km de pura terra, até Junin de Los Andes em 09:30h de viagem. Junin não tem muito apelo turístico, mas mesmo assim fiz um dos seus circuitos turísticos, indo conhecer o lago Tromen dentro do Parque Nacional Lanín. Fui surpreendido por uma desagradável chuva que aliada ao frio, aos fortes ventos que superavam os 50Km/h e a lama do parque que quase me levou ao chão mais de cinco vezes me ajudaram a decidir levantar “acampamento” e baixar para San Martin de Los Andes.
Cheguei ontem a San Martin com muita chuva e a previsão para os próximos dias é de neve. Por enquanto a chuva constante não incentiva muitos passeios, mas assim que o tempo melhorar saio da “toca” para explorar a região. San Martin de Los Andes possui uma estrutura turística muito mais desenvolvida que Junín, sendo assim uma agradável cidade para esperar com calma uma melhora de clima.
Um grande abraço e boas estradas.
Rodrigo Ventura
Co-patrocínio:
ABRAM - www.abrambrasil.org.br - Associação Brasileira de Motociclistas